À descoberta do Museu – Entrevista a Ivone Magalhães

Ivone Magalhães, Directora do Museu Municipal de Esposende

 

 

Especializada em arqueologia náutica, assume-se como uma pessoa observadora e interessada, que não passa pela vida sem questionar ou desconstruir paradigmas pré-concebidos.
Dotada de um espírito vibrante e de uma energia contagiante, coordena há 25 anos o projecto que considera parte integrante da sua vida: comunicadora por natureza, é também a investigadora curiosa que não recusa um desafio.
Ivone Magalhães, a directora do Museu.


Que género de exposições podem habitualmente ser encontradas neste museu?

Ao longo dos últimos quinze anos temos trabalhado essencialmente exposições de arquitectura. A arquitectura é muito interessante porque nós apreendemos o mundo pelas suas formas, pelo desenho que as coisas têm, e estas vão ganhando volume dentro de nós, de forma mais ou menos densa.

Sempre que há uma nova exposição, o Museu tem habitualmente mais visitantes de Esposende, ou de outras localidades?

As duas coisas. Já fizemos duas exposições sobre Esposende que foram um sucesso, porque foram exposições muito emocionais e afectivas. Depois acontece haver uma exposição nova que é divulgada na comunicação social e as pessoas ficam com curiosidade e vêm ver, mas o que trás as pessoas ao Museu, somos nós. Temos que chamar as pessoas e convida-las.

Qual é a história deste edifício?

Era um teatro que foi construído para substituir outro teatro, que tinha ardido. Cresceu sobre as casinhas que ocupavam este espaço físico, na parcela disponível. Tem apenas 6,5 de largura. É muito alto, tem quatro andares, mas é pequenino. E foi construído aqui, por ser ao lado da Estrada da Póvoa. Quando Esposende faz a transição do carro de bois para o autocarro há necessidade de se alargar as ruas. Como não era possível alargar do lado da Nacional 13, fizeram a estrada por este lado. Hoje em dia esta estrada é secundaríssima, mas é mais larga do que a Nacional, porque foi criada depois. O edifício é de 1911 e este largo, que é recente (anos 40), foi criado para ele. Esposende teve um limite de construção de dois pisos. As igrejas viam-se à distância com as suas grandes torres, e o “Teatro Club” também, porque era mais alto do que a igreja. Somos o maior edifício em altura construído no início do séc. XX em Esposende!

Qual a importância dos museus na vida das pessoas e a sua maior responsabilidade?

Temos a responsabilidade de ajudar as pessoas a aprenderem a gostar de museus. Antes, os museus eram o “parente pobre” da cultura porque se considerava que só davam despesa. Mas percebeu-se que não é despesa, é investimento, porque a cultura multiplica-se em cultura. Provavelmente as pessoas vão passar a ter uma atitude diferente, então, nós estamos a criar uma nova geração de pessoas interessadas.

Como directora do museu há 25 anos, de onde vem o seu entusiasmo?

Vem da educação. Eu fui educada para gostar. E sou uma pessoa privilegiada porque cresci entre dois mundos. O meu pai é de Lisboa, do mundo académico e erudito, e a minha mãe era da aldeia e tinha poucos estudos, como era comum nas meninas da época. Mas era uma pessoa extremamente criativa, que me incentivava a argumentar. Fui criada por um lado numa elite cultural, e ao mesmo tempo, num mundo da terra, de pôr os pés descalços no chão, em que aprendi a dar valor aquilo que de facto tem que ser valorizado. As duas coisas são importantes. Tudo à minha volta me ajuda a ser curiosa e a ter vontade, mas também tenho a sorte de encontrar pessoas que me desafiam. Faço parte de uma equipa muito complementar de pessoas totalmente diferentes umas das outras mas que encaixam muito bem, e mesmo cansados, fazem coisas fantásticas. Não é por dinheiro, é porque nós gostamos. Depois, eu ocupo um determinado lugar na hierarquia, o que significa que tenho chefes. Mas se eu tivesse chefes que não me dessem esta liberdade para sonhar, para voar, fazer a minha própria interpretação das coisas, aceitar as propostas deles, fazer coisas diferentes…se não tivesse uma Vereadora da Cultura que me desafiasse… A nossa atitude, o “não ficarmos parados” contribui para, mas as pessoas de que nos rodeamos também ajudam. Há uma atitude muito positiva no meio de tudo isto.

Qual a sua missão enquanto coordenadora dos Museus?

Nós temos que criar exposições atractivas. O objectivo é o mesmo de há vinte e cinco anos: olharmos para o Museu como um todo, pensando que tem de dar lucro, e que sendo uma empresa cultural,  o dinheiro publico tem de ser bem gerido. O valor, é aquilo que criarmos em termos de património para as pessoas. Os ensinamentos que elas levam, algo que mude a sua atitude para sempre. Está escondida, mas é uma grande responsabilidade. A cultura é o elemento de base para as pessoas. Está “por dentro”, é a nossa identidade. A cultura não é só o património, o monumento, o objecto, mas o que nós sentimos em relação às coisas, o que nos mobiliza. Os museus também são lugares de felicidade, e eu sou a prova viva disso.

 

 

Texto: Inês Soares
Foto: reprodução da internet

Publicado no jornal Esposende Semanário

 

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