É possível salvar a Floresta?

 

O Presidente da Liga de Bombeiros Portugueses Jaime Soares reflecte sobre a situação do país em relação aos incêndios florestais e às dificuldades inerentes ao seu combate.

“O entendimento da floresta não só como valor económico mas ambiental, leva a que as sociedades hoje se preocupem mais com o meio ambiente.!

 

CW – Na sua opinião, qual é a situação atual de Portugal em relação aos últimos anos, face aos fogos florestais?

JS – No que diz respeito aos bombeiros, tem havido uma grande evolução e modernização não só de equipamentos como também de recursos humanos face às dificuldades no combate a um incêndio florestal. Tem também havido um conjunto de exercícios por parte dos agentes de proteção civil que devidamente enquadrados são hoje uma garantia diferente. A evolução é francamente favorável, contudo, não tem havido evolução ao nível da prevenção estrutural, no ordenamento, no planeamento da floresta portuguesa. A prevenção não acompanha o ritmo da desertificação do interior, e a substituição das próprias pessoas que deixaram de estar. No passado, havia o retirar da lenha da floresta, os rebanhos de cabras, tudo isso tornava a floresta menos combustível. Essa é uma situação que tarda a desenvolver-se por isso essa é uma área preocupante.

CW- Quais seriam as principais medidas a ser tomadas para essa prevenção?

JS – As medidas que já estão a ser tomadas através da fiscalização por parte das autoridades do setor, nomeadamente a guarda nacional republicana (GNR). Tem também havido uma evolução cultural bastante grande nesse sentido. A sensibilização, o entendimento da floresta não só como valor económico mas ambiental, leva a que as sociedades hoje se preocupem mais com o meio ambiente. Penso que estas são práticas que irão demorar muito tempo a implementar e deviam ser incrementadas ainda com mais força nas escolas através de uma educação cívica mais profunda que ajudasse na construção do cidadão e que tivesse em linha de conta o papel importante da floresta nas mais variadas vertentes.

CW- É possível salvar a floresta?

JS – Eu acredito que sim, essa mudança passa por todos nós, por uma educação cívica, por um empenhamento maior, uma grande abertura de espírito para aquilo que é a importância da floresta e eu espero que nós consigamos ser capazes de ter esse entendimento.

CW– Quais são neste momento as maiores dificuldades sentidas pelos bombeiros no combate aos incêndios?

JS – Essas dificuldades são muitas, a falta de ordenamento e planeamento da floresta cria-nos dificuldades acrescidas. Hoje há uma exigência maior ao nível dos recursos humanos em Portugal. Como se sabe a maioria esmagadora dos bombeiros são voluntários, e com as dificuldades e a crise durante algumas horas do dia há grandes dificuldades em reunirmos muitos voluntários. Os bombeiros portugueses voluntários são na ordem dos 96% no teatro de operações e por isso há dificuldades inerentes a todo o processo apesar de os fogos florestais só correspondem a 8% de toda a atividade dos corpos de bombeiros, mas como se sabe é algo que tem alto nível de perigosidade, envolvência de recursos humanos, materiais e equipamentos por isso há um desgaste muito grande, e como sabemos as associações humanitárias vivem dos seus associados, de subsídios, mas hoje há menos associados, menos subsídios, e as estruturas do poder instituídos, o poder central (o governo) e o poder local, a Associação Nacional de Municípios deviam dispor-se a aumentar os seus orçamento para que houvesse melhor sustentabilidade financeira das associações humanitárias. Foi recentemente criada uma lei de financiamento em que o governo aumentou em relação ao valor que recebíamos 12%, mas os municípios portugueses não quiseram entrar nesta nova lei aprovada na assembleia da república, o que é efetivamente desagradável e um erro grosseiro dos próprios Municípios, porque se há Municípios que ajudam os bombeiros há também uma quantidade muito grande que não colabora e portanto se a lei do financiamento tivesse sido integrada, estaria assegurado um valor igual para todos os corpos de bombeiros.
Se há municípios em Portugal que apoiam, há outros que se desresponsabilizam do processo. A vida dos bombeiros portugueses não está fácil, há que recuperar muitos quartéis de bombeiros, fazer quartéis de bombeiros novos, e há que renovar o parque de viaturas, porque muitas têm mais de 20, 30 anos e têm custos de manutenção que são absolutamente incomportáveis e não garantem num teatro de operações a segurança que se exige a quem tem de combater um inimigo tão forte como são os incêndios florestais.

CW- Relativamente ao governo, que medidas faltam ainda implementar?

JS – Muitas! Nós temos vindo principalmente nestes últimos quatro anos a recuperar coisas já com mais de 20 e 30 anos de atraso. Há um bom diálogo de negociações, há muitas reformas das leis mas há ainda muito a fazer. Se se mantiver o ritmo destes últimos quatro anos estou convencido que a evolução é favorável. Há pelo menos uma abertura para falar, para negociar, discutir os problemas, dar espaço ao diálogo e não à guerrilha institucional. Penso que com esta postura de parte a parte conseguiremos desenvolver e potenciar aquilo que importa para facilitar a vida dos bombeiros portugueses que já se si pela função que exercem é extremamente difícil e complicada.

CW- Como presidente da liga de bombeiros portugueses, qual tem sido o seu maior desafio?

JS – O meu maior desafio é criar este espaço de diálogo com as várias entidades e instituições. É uma honra ser representante de todos os bombeiros portugueses e por isso há que assumir uma postura humana, moral e intelectual que se identifique com aquilo que os bombeiros portugueses merecem e esperam de nós, em termos de em primeiro lugar manter a unidade dos bombeiros portugueses, as associações dos corpos de bombeiros e federações distritais. Não podemos esquecer que há 456 associações e corpos de bombeiros com 30 mil homens no ativo, mais 30 mil na reserva e nos quadros de honra, e por isso é um desafio muito importante. É gratificante exercer este trabalho, dentro deste princípio de que os bombeiros portugueses estão unidos em torno do projeto que eles próprios definem e constroem. Isso permite-me acreditar que as dificuldades são muitas, mas não são tantas como no passado, e vamos conseguindo com esta perseverança, com este espírito, com esta vontade, conseguir ultrapassa-las no dia-a-dia.

 

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Inês Soares
Photos: internet

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imagens: reprodução da internet

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