Entrevista a João Terras, curador da Exposição “Ingénua

Entrevista a João Terras, curador da Exposição “Ingénua – a partir do processo criativo de Frankelim Vilas Boas”

O processo criativo e o “universo ingénuo” de Franklim Vilas Boas foram o mote e ponto de partida para a reflexão de alguns artistas contemporâneos.
Reis Valdrez, José Nibra e Favela Discos, reinventaram a matéria-prima e o seu propósito, desconstruíram conceitos, e esculpiram existências diferentes.
Há sempre algo de orgânico nas obras que nascem das raízes que o mar e o rio transportam. Há peças soltas que se encontram pelo caminho, e sincronias harmoniosamente improváveis.
Com curadoria de João Terras, a exposição inaugurada no dia 29 de Setembro, não foi uma acção isolada, mas o início de um projecto aberto que se irá prolongar no tempo: o processo criativo de “Frankelim Vilas Boas”, assume-se enquanto fio condutor de tanto que ainda há a descobrir.

O João Terras foi o responsável pela organização da Ingénua. Em que outros projectos está envolvido?
Neste momento estou a trabalhar no Centro Internacional das Artes José de Guimarães, um Museu de Arte Contemporânea em Guimarães. No museu temos uma peça de Frankelim Vilas Boas, e curiosamente foi dessa forma que o conheci.
Sou também curador no Espaço MIRA, uma galeria de arte contemporânea no Porto.

O que é a Ingénua?
É um projecto que nasceu de uma paixão que eu senti de forma impulsiva quando descobri o Frankelim. Pelo facto de ele ser de Esposende e eu também, por tê-lo descoberto muito tarde, apenas há 2 anos…Decidi recuperar o imaginário dele, traze-lo para Esposende, mostra-lo em Esposende.
Inicialmente pensei trazer e expôr as obras dele, mas rapidamente percebi que seria muito difícil. A sua obra está muito dispersa, em várias colecções particulares e no museu de Etnologia em Lisboa.
Ao fazer a “Ingénua”, a ideia é que esta tenha outras edições, podermos chamar outros artistas a evocar Frankelim.
Para esta exposição, decidi chamar o Reis (Valdrez) que tem um processo de recolha e do trabalho de madeiras muito similar ao do Frankelim, o José Nibra que é de Esposende, que está numa ilha (Inglaterra) , está longe…Esta ideia de viagem está presente das próprias peças do Frankelim, porque ele tinha esta temática de trabalho muito ligada à costa, ao mar e aos barcos.  Depois decidi chamar a Favela por ser um grupo que trabalha na contra cultura, que está – e quer estar! – um pouco “à margem”.  São um grupo extremamente crítico, sempre atento à sociedade, que pelo seu carácter improvisado e experimental me pareceu  quase uma repercussão do que era a figura do Frankelim.
A “Ingénua” é esta ideia de convocar o artista sem ele estar presente. E fazemo-lo através do método de trabalho dele, do seu processo criativo.

Porque motivo existe – sendo um escultor de tanta expressão – esta “lacuna” em relação ao reconhecimento de Frankeim Vilas Boas em Esposende?
Há um texto de Ernesto de Sousa que diz que ele viveu sempre nesta dicotomia. Era considerado uma pessoa problemática, desregrada, que abusava do álcool, o que nos anos 60 não era muito bem visto por parte dos seus conterrâneos.
Era uma pessoa diferente, mesmo em relação aos outros artistas da arte popular que trabalhavam a pedra ou o barro como a Rosa Ramalho. Ele trabalhava a madeira, já fugia da regra. Depois, não criava dentro do universo da “arte popular” que está muito ligada à temática do sacro-profano. Ele trabalhava um imaginário que destruía isso: monstros, figuras, coisas muito intuitivas.

Enquanto NICE (Núcleo de Intervenção Cultural de Esposende) decidiram homenagear um artista popular através de uma abordagem bastante contemporânea e alternativa.
Muitas vezes achamos que a arte popular está distante da arte contemporânea, que a arte contemporânea é algo fechado a uma elite intelectual e restrita da sociedade, mas percebe-se que existe um fio condutor que paira sobre o ser humano. Tanto no  Frankelim que tinha a 4ª classe e era engraxador, como no Reis, que estudou na Faculdade de Belas Artes e foi bolseiro da Gulbenkian, existe algo muito similar, “o mundo ingénuo que nos escapa”, como escrevi no texto de apresentação da exposição.

É uma sensibilidade que não é académica.
Exactamente. Não tem que ser académica. É uma ideia de expressão que está inerente ao ser humano, ou a alguns singulares.
“Ingénua”, é um ponto de partida. Durante o próximo ano, no centenário da sua morte, podermos fazer uma exposição grande e trazer obras suas a Esposende, mas continuando com este projecto, chamando novos artistas a reinventar o seu universo e a revitaliza-lo.

Na sua opinião, o que é que as pessoas deviam captar quando vêem uma peça de Frankelim Vilas Boas? Deviam ver “para além da peça”?
Eu penso que o que Frankelim nos mostra, são duas palavras muito fortes: Humildade e Simplicidade. A complexidade da arte está por vezes nas coisas simples. No seu universo figurativo, traduz-nos uma materialidade tão simples como um resto de madeira que nos chega.
O Frankelim oferece-nos este lado ingénuo e simples do ser humano.

Próximos projectos do NICE?
Teremos um ciclo de cinema a iniciar dia 18 que irá ter um momento por mês às quintas- feiras em Outubro, Novembro e Dezembro. Regressam também as Atlantic Live Sessions na Casa da Juventude, este mês com os Gãrgoola.
Em Novembro teremos a 2ª edição de BiLand in Diapasão. Uma festa de anos que se transforma numa mostra de arte, de música, um convívio e uma celebração cultural.
Em 2019 continuaremos com a programação contratual com a Câmara Municipal, e a sonhar com a nossa sede que será um dos nossos polos fundamentais. Que nos irá ajudar a receber as pessoas e a mostrar o que é o NICE.

Publicado em Esposende Semanário, 2018

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